A força da luta de massas da classe trabalhadora na derrota eleitoral do bolsonarismo – por que ainda duvidam da nossa força?
Com a virada histórica de Lula no segundo turno puxada por milhões de pessoas nas ruas em atos gigantescos e com grande participação da juventude, voltam-se as discussões sobre a importância dos movimentos de massas nos rumos da sociedade.

Os atos de rua convocados em todo o Brasil nas últimas semanas reuniram multidões recordes, um dos maiores movimentos de massas da história do país. Principalmente nos dias 11 e 24 de outubro, foram milhões, com cada cidade grande reunindo centenas de milhares de pessoas para tentar, como dizia a imprensa, um milagre eleitoral, ou seja, virar uma desvantagem de Lula no resultado do primeiro turno. Os atos não foram organizados pelas campanhas, mas impulsionados por jovens e setores da classe trabalhadora, muitos deles sem experiência prévia de movimento.
A burguesia e seus órgãos de imprensa tentam convencer o tempo todo que esses movimentos têm pouco efeito, em uma lógica liberal de convencimento individual com argumentos e “propostas” como
direção dos caminhos da sociedade. Por outro lado, muitos setores mais sectários da esquerda vêem esses atos de rua como insuficientes, pois não atacam diretamente os inimigos poderosos, muitas vezes criando ficções de um movimento de luta armada ou de ataque físico à bancos ou outras instituições.
Também, durante a campanha, muitas pessoas se perguntavam se esses atos conseguiam “virar voto”. Foi uma discussão honesta se eles dialogariam com indecisos que poderiam votar em Lula no segundo turno. Apostavam mais nas conversas pessoais, as famosas banquinhas com café e bolo, com militância descaracterizada visualmente, tentando convencer pessoas em locais públicos.
Mas quais são os efeitos dos movimentos de massas que pudemos ver nestas últimas semanas?
Colocar milhões nas ruas demonstra convicção e disposição daqueles que estão lá e, portanto, força social, a capacidade de influenciar em todos os setores da sociedade. Na campanha do segundo turno, o recado das multidões era nítido, derrotar a extrema-direita e avançar em conquistas em prol da classe trabalhadora. O fim da escala 6x1, que estava no Senado aguardando o resultado dessa “balança de peso social”, acabou sendo votada logo em seguida aos atos do dia 11, inclusive com a anuência da extrema-direita. Aliás, é comum que vitórias da classe trabalhadora venham em governos ou congressos de direita, pela pressão do seu movimento de massas. Pela composição social e pauta dos atos, eles tiveram um caráter declarado de movimento da classe trabalhadora com um novo elemento, a juventude que, nos últimos anos, não tinha se colocado de forma massiva nas disputas políticas das ruas no Brasil.
Quando milhões vão às ruas, mesmo aqueles que não se interessam em política, são envolvidos pelo clima do movimento, cria-se um período de catarse social em que o direcionamento da sociedade pode mudar de forma drástica. A grande burguesia e sua representação na imprensa fica preocupada e muitas vezes muda de tom: esse movimento pode convencer mais pessoas de puxar as pautas mais à esquerda. Na maioria das vezes, esses setores dão alguns anéis para não perder os dedos, ou seja, abaixam a cabeça para o grande movimento e tentam desfigurá-lo, antes que seja tarde. O pequeno e médio patrão vê o movimento na mesma altura dos seus olhos, vê a empolgação dos seus próprios empregados, muitas vezes pode ver até algumas de suas pautas atendidas. O setor bolsonarista se desanima, se desorganiza e prefere se esconder frente ao inevitável ou se desespera e usa a sua violência de forma desorganizada.
Mas o mais importante é o envolvimento de muita gente trabalhadora que vê naquilo como algo seu. Se existia marasmo e desesperança, é no movimento de massas que a pessoa vê que pode construir, com a sua participação, mudanças ao seu favor, como aconteceu de fato com o fim da escala 6x1. Na atualidade, com a classe trabalhadora toda fragmentada, a maioria sem poder contar com as suas organizações sindicais, muitas vezes é a única forma de trazer milhões para a luta. E é na rua que a esquerda organizada consegue finalmente dialogar com esses milhões, o que normalmente é impedido pela lógica do cotidiano.
Mas o mais importante é o próximo passo: elevar a consciência de que a classe trabalhadora organizada nas ruas pode arrancar qualquer coisa dos governos e dos patrões. Agora, não basta o ato na avenida, mas a organização nos locais de trabalho e estudo, assembleias nos bairros, greves, ocupações e travamentos de vias que colocam os poderosos contra a parede, causando prejuízos aos patrões. A organização e a consciência vão crescendo entorno da ideia de autogoverno dos trabalhadores à medida que a luta cresce e se enraíza mais, o que pode se tornar um processo revolucionário. A base do marxismo e da revolução russa sempre foi a lógica do movimento de massas. Lenin combateu ideias que existiam e ainda existem dentro da nossa classe de atuações radicalizadas de pequenos grupos ou indivíduos, usando atentados ou grupos armados separados da organização real da classe trabalhadora.
A burguesia e o imperialismo sabem disso e combatem o movimento de massas da nossa classe cotidianamente. Uma parte disso é a repressão policial e mostrá-lo como um movimento violento e caótico. Outra parte é desmoralizá-lo e, dentro de um ideal liberal, construir na mídia a ideia de que ir para a rua não serve para nada. Boa parte da esquerda mais moderada segue ideia parecida, de que os governos da esquerda trazem avanços, mas o movimento de massas deve ser apenas o suporte desses governos, garantindo a passividade e o limite das ruas, defendendo o “estado democrático de direito”, a sua estabilidade e suas regras.
Desde 2013 no Brasil, pela radicalidade da juventude contra a violência policial e por direitos, naquele ano, as ruas se transformaram na principal forma de definição política. Depois disso, o bolsonarismo também cresceu nela e os atos de massas deles, principalmente em 2015 e 2016, resultou no golpe em Dilma. A história mostra como os movimentos de massa da classe trabalhadora definem rumos e, o mais importante, podem crescer para a construção de processos revolucionários. Agora na França e ouros países da Europa, os novos movimentos da juventude apontam que esse é o meio de mudar os rumos da história. Em tempos de crise do sistema, cada vez menos os acordos palacianos ou dos magnatas definem o futuro e cada vez mais a capacidade de organização da classe trabalhadora pode criar novos processos revolucionários. Os movimentos de massas atuais são o primeiro passo.
Governo Lula e o movimento de massas
A eleição não foi só definida nas ruas. Outros elementos trabalharam conjuntamente nesse processo, mas de forma dialeticamente integrada. Muito se fala no Exército de Lula, canal de whatsapp com mais de 10 milhões de pessoas dirigida por Janones, um deputado de centro-esquerda – houve uma enorme mobilização nas redes sociais. Outro elemento é o histórico e carisma de Lula entre as massas e a política social dos governos petistas que causaram muito impacto nas duas últimas décadas e, por outro lado, a rejeição à extrema-direita e aos Bolsonaro. Também, as conversas e convencimento individual e toda a campanha do PT. Agora, no balanço das eleições, está se abrindo dentro da esquerda e nas organizações da nossa classe um debate sobre esses elementos e os passos futuros.
A estratégia do PT é aclamar o movimento de massas, mas para dizer que precisa dele para conseguir governar. Por outro lado, já inicia o diálogo com o mercado financeiro que usa também as suas armas, tendo derrubado a bolsa de valores nos últimos dias. Pelo histórico e projeto da direção do PT, espera-se mais conciliação com a direita, argumentando que não há saída com um congresso dominado pelo bolsonarismo. Assim, o movimento de massas é usado por eles de acordo com a conveniência, mas sempre lembrando que o limite dele é o “estado democrático de direito” e de que ele não pode causar instabilidade. Nos últimos quatro anos, essa estratégia levou o movimento a ficar de braços atados e fez com que o bolsonarismo se reorganizasse e ganhasse o primeiro turno, mesmo com o seu maior líder preso pela tentativa de golpe em 2023.
O movimento das últimas semanas no mundo todo não vai parar, ele pode crescer e tomar formas mais permanentes de construção. No Brasil, Lula sai com muito simpatia e apoio das massas. Entretanto, é importante saber que a sua estratégia não comporta o crescimento de um movimento independente e de massas da classe trabalhadora que pode arrancar mais direitos e construir um processo de transformações radicais que precisamos. É necessária a construção de uma alternativa de esquerda baseada nessas lutas e com um programa independente do governo que resolva os problemas do povo para fazer avançar um projeto revolucionário no Brasil.


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