Três momentos de 2026 em que o governo Lula foi contra a luta da classe trabalhadora
- Marcio Silva
- Mar 3
- 4 min read
Este ano tão importante para o futuro da classe trabalhadora no Brasil, em que precisaremos derrotar eleitoralmente a extrema-direita, começou marcado por três momentos em que o governo nos ataca diretamente. Esses ataques estão sendo respondidos com luta! Além do velho projeto de Lula, agora esses ataques têm uma nova cara, Guilherme Boulos e o PSOL. Qual é o efeito disso nas eleições e no futuro da classe trabalhadora no Brasil?

O primeiro momento apareceu mais graças à luta radicalizada dos povos indígenas do Pará, que ocupou um gigante do agronegócio, a Cargill, para impedir a privatização dos rios Tapajós, Madeira e
Tocantins, acordo do governo com os grandes produtores de soja. O governo foi obrigado a revogar o decreto 12.600/2025 como resultado desta luta e agora tenta passar a ideia de que dialoga com os indígenas, mesmo tendo passado meses ignorando o movimento. Trata-se de um decreto do Programa Nacional de Desestatização, isso mesmo, não se trata de um programa de Milei ou de um neoliberal radical, mas do governo Lula. O decreto não foi um descuido, um detalhe, a radicalização dos indígenas não foi falha de comunicação, isso é luta de classes e o futuro do meio-ambiente, da Amazônia e de seus povos, e o governo tem um lado.
O segundo momento é o PLP 152 que regulamenta o trabalho por aplicativo. Como esperado, as empresas estão fazendo um grande lobby e o projeto de lei tem autoria do deputado Luiz Gastão do PSD/CE, projeto do centrão. Mas o problema é que o projeto avança por causa do grupo de trabalho do governo que não se posiciona do lado da categoria de trabalhadores, entre eles o mais precarizado, a/os entregadora/es. O projeto não prevê direitos, mas acaba por regulamentar por lei toda a precarização que os gigantes do apps, como Uber, Ifood e Rappi, inventaram nesta nova forma de exploração do trabalho. Os movimentos de trabalho por aplicativo são bastante fragmentados, muitos setores foram ganhos pela direita, principalmente os motoristas de uber, mas têm se levantado setores à esquerda, principalmente de entregadora/es. Estes setores têm denunciado o governo por estarem junto com a direita, o centrão e as empresas.
O terceiro momento é a trairagem do não cumprimento do acordo de greve da educação federal de 2024. A maioria dos itens do acordo não foram cumpridos, principalmente relacionados à carreira, após dois anos de mesas de negociação em que o governo só enrolou os sindicatos, como a FASUBRA (federação de técnicos das universidades), SINASEFE (sindicato nacional dos IFs) e o ANDES (sindicato nacional da docência universitária). Por isso, a/os servidora/es técnico-adiministrativos (TAEs) das universidades estão entrando em greve neste mês (março), com a maior parte das assembleias nos campi universitários já iniciando o movimento de paralisação. Aqui, temos uma categoria majoritariamente apoiadora de Lula e o governo a trata com o objetivo de enfraquecer a sua luta, a universidade pública e os sindicatos.
Qual o efeito da relação do governo com esses três diferentes setores da classe trabalhadora? Muitos ficarão desiludidos com a esquerda, considerando o simbolismo de Lula? Muitos vão ver que a luta é a única saída? Muitos ficarão cansados e arrebentados por esses ataques e desistirão de qualquer saída coletiva? Quantos serão atraídos pelo falso discurso anti-sistema do bolsonarismo?
Para o PT, a resposta é sempre a mesma: não devemos criticar o governo, pois a extrema-direita está ameaçando ganhar as eleições. Para eles, a única saída é criar um conto de fadas de governo, de que é possível construir um Brasil bom para o povo dentro deste sistema de exploração,e que isso vai garantir a eleição de Lula e as “políticas públicas” favoráveis à classe. Esses três exemplos acima mostram o contrário e não são exceções, mas revelam que o projeto do PT e o seu discurso apenas enfraquecem a classe trabalhadora e a deixa refém da eleição de Lula. É óbvio que em um período de tempo maior, isso fortalece a extrema-direita e cria o cenário perfeito para a vitória eleitoral deles nos governos de mais estados e nas câmaras legislativas, mesmo que em 2026 Lula ganhe nas urnas.
Mas o elemento mais aterrador deste teatro dramático é o surgimento de Guilherme Boulos como um dos principais porta-vozes deste projeto contra a classe trabalhadora. Foi ele, com o PSOL debaixo do braço, que falou no microfone traindo os povos indígenas, que está à frente do GT da regulamentação dos aplicativos e que está defendendo que devemos apoiar o governo e não o criticar em nenhuma hipótese. O PSOL tem a razão da sua existência justamente na visão de que o projeto do PT é uma desgraça para a luta organizada da classe trabalhadora.
Os povos indígenas do Pará e de todo o Brasil, as mulheres, o povo negro e das periferias, o funcionarismo das universidades e dos IFs, entre tantas outras lutas enraizadas na nossa classe, são exemplos de como conquistar direitos, impedir ataques do capital e, com isso, derrotar a extrema-direita. O resultado eleitoral será resultado da organização e mobilização da nossa classe. Mas mais do que isso, uma sociedade igualitária e justa apenas virá da luta independente e revolucionária da classe trabalhadora!






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